Hans Jonas

Hans Jonas é um dos filósofos mais importantes do século XX.


Fonte: https://j.pucsp.br/noticia/filosofia-realiza-coloquio-hans-jonas

Vida

Hans Jonas nasceu em 1903, em Mönchengladbach, Alemanha.

Na década de 1920, Hans Jonas estudou Filosofia com os filósofos Martin Heidegger e Edmund Husserl e com o teólogo protestante Rudolf Bultman.

Hans Jonas estudou Filosofia e Teologia na Universidade de Freiburg, na Universidade de Berlim e na Universidade de Heidelberg. Em 1928, obteve seu doutorado em Filosofia da Universidade de Marburg sob tutela de Martin Heidegger. Jonas fazia parte de um grupo de estudantes judeus que estudavam com Heidegger. Hannah Arendt era uma das integrantes desse grupo.

Em 1933, Martin Heidegger se uniu ao Partido Nazista, apesar de muitos de seus alunos serem judeus. Isso resultou no rompimento de relações com Hans Jonas.

Ciente do crescimento do sentimento contra os judeus na Europa, Hans Jonas se afiliou ao movimento sionista. Em 1933, logo após os nazistas terem tomado o poder, Jonas deixou a Alemanha. Ele foi inicialmente para a Inglaterra e de lá seguiu para a Palestina, na época sob o domínio britânico.

Durante a Segunda Guerra Mundial, Jonas se alistou na Brigada Judaica – uma unidade do Exército Britânico. O exército britânico havia formado essa brigada especial para judeus que quisessem lutar contra Hitler. A brigada de Jonas foi enviada à Itália e, posteriormente, à Alemanha.

Após o término da Segunda Guerra Mundial, Hans Jonas voltou à sua cidade natal à procura de sua mãe. Ele descobriu que ela havia morrido nas câmeras de gás de Auschwitz. Localizado na Polônia, Auschwitz foi o mais notório campo de extermínio nazista.

Em 1948, Hans Jonas lutou na Guerra de Independência de Israel. Em 1950, mudou-se para o Canadá e, em 1955, para Nova Iorque, onde viveu até vir a falecer em 1993, aos 89 anos de idade.

O trabalho de Hans Jonas aborda os desafios políticos e históricos de seu tempo: a sociedade em massa, o totalitarismo, o Holocausto, a devastação das bombas nucleares em Hiroshima e Nagasaki, o desastre ambiental em Chernobyl e os riscos da Engenharia Genética e do avanço da tecnologia.

A filosofia de Hans Jonas serviu de base para o movimento pelo Meio Ambiente na Alemanha e foi fundamental para o desenvolvimento da Bioética nos Estados Unidos.

Ciência e a Ética da Responsabilidade

A Ética da Responsabilidade apresentada por Hans Jonas difere das éticas tradicionais de filósofos que o antecederam, como Aristóteles e Kant. A ética de Hans Jonas vai além da moralidade de valores sociais ou da Política. Filósofos como Nicolau Maquiavel, Nicolau Copérnico, Galileu Galilei e René Descartes eram antropocentristas: o universo era avaliado de acordo com sua relação com o ser humano. Isto é, o homem era colocado em primeiro plano.

A obra de Hans Jonas, O Princípio Responsabilidade, publicada em 1979, aborda os problemas sociais e éticos criados pelos avanços tecnológicos. Hans Jonas demonstra a necessidade de haver uma nova ética para lidar com o alcance sem precedentes do poder tecnológico. Jonas trata de uma ética que impõe limites ao processo tecnológico, especialmente à luz do perigo iminente que novas tecnologias possam causar.

Antes do advento do mundo moderno, a responsabilidade pela integridade e continuidade da vida na terra não recaía sobre o ser humano: a natureza cuidava de si mesma. O homem não possuía a capacidade de alterar de forma significativa o meio em que vivia e, assim, impactar futuras gerações. Contudo, a relação do ser humano com a natureza e o mundo mudou drasticamente. Com o desenvolvimento da tecnologia, a natureza se tornou vulnerável: passou a ser destruída pela humanidade. À medida que ocorrem inovações tecnológicas, formas mais poderosas de tecnologia são desenvolvidas. A tecnologia vem estendendo o alcance do poder humano muito além da capacidade humana de prever as consequências dos avanços tecnológicos. Jonas aborda as grandes transformações causadas pela tecnologia: o perigo nuclear, a destruição do planeta, o consumo desenfreado de recursos naturais e a Engenharia Genética. Para Jonas, as relações entre conhecimento humano, poder tecnológico, responsabilidade e ética são complicadas e fundamentais. Na visão do filósofo, o mundo precisa que os seres humanos tomem conta dele - um fato sem precedentes na história. Os seres humanos precisam trabalhar para garantir o bem-estar de futuras gerações.

Hans Jonas desenvolveu a Ética da Responsabilidade ao pensar em consequências futuras. O filósofo atribuiu ao ser humano a responsabilidade pela manutenção da natureza e pela garantia do bem-estar e da existência de futuras gerações.

Em O Princípio Responsabilidade, Jonas enfatiza que a sobrevivência da humanidade depende de esforços para cuidar do planeta e, assim, assegurar seu futuro. Na visão de Jonas, a origem da crise do meio ambiente é o desenvolvimento científico e tecnológico desenfreado, desprovido de uma conduta ética estruturada para servir como guia. Segundo o filósofo, recai sobre o ser humano a responsabilidade ilimitada de preservar a vida na terra. Essa responsabilidade é total e contínua.

O que significa responsabilidade ilimitada? Exemplificando: pais são responsáveis por seus filhos de forma limitada e temporária: a responsabilidade dos pais em relação aos filhos geralmente termina quando estes se tornam adultos. Contudo, de acordo com Jonas, a responsabilidade do homem em relação à natureza é ilimitada, pois nunca cessa. O avanço da tecnologia precisa ser condicionado para garantir a continuidade da vida no planeta.

Hans Jonas formulou o novo princípio de moralidade: “Age de tal forma que os efeitos de tuas ações sejam compatíveis com a permanência de uma vida humana autêntica sobre a terra".

Segundo o princípio de responsabilidade de Jonas, não se pode sacrificar o futuro pelo presente: se a humanidade se preocupar apenas com o presente, o futuro pode deixar de existir. A ética proposta por Hans Jonas inclui a responsabilidade por futuras gerações. Esse tipo de responsabilidade não pode ser uma relação recíproca, pois é direcionada às gerações futuras. É uma responsabilidade por pessoas que ainda não nasceram, inclusive por seres humanos que habitarão a terra após todos que hoje estão vivos já terem morrido. Portanto, trata-se de uma responsabilidade que não pode ser reciprocada.

Jonas não vê com bons olhos a Tecnociência: o filósofo critica uma ciência que seja desumanizada. Jones discute a Bioética e os deveres que o ser humano tem consigo, com o meio ambiente e com a posteridade. O filósofo defende a necessidade de uma ciência com ética. Em O Princípio Responsabilidade, Jonas aponta para a ampliação da enorme distância entre a enorme capacidade tecnológica do ser humano e a diminuição da sensibilidade moral humana.

Em seu livro, Técnica, Medicina e Ética, Hans Jonas volta a tratar do tema da vida e dos desafios e ameaças lançadas pela Ciência e pela técnica. Hans Jonas pondera sobre a necessidade de formular novos critérios éticos para lidar com as novas relações entre a natureza e a Ciência. Trata-se de um campo de conhecimento muito novo e, portanto, a ética tradicional não teria como ter abordado essas questões.

A capacidade e os avanços tecnológicos criam questões éticas que concernem a própria natureza do ser humano. Os temas são polêmicos, como a engenharia genética do ser humano.
O filósofo acreditava que a Ciência e a técnica não devem progredir antes de o homem ponderar os efeitos da tecnologia na própria natureza da humanidade. Os avanços no campo da Medicina e da Biotecnologia fizeram com que o ser humano se tornasse potencialmente um objeto manipulável. Isso levanta a questão: qual o limite dos experimentos com seres humanos? O que restará do ser humano se ele for “melhorado” pela Engenharia Genética? Jonas lida com temas graves: por exemplo, será que o homem pode se “recriar inventivamente”?

O filósofo acreditava que a maior ameaça à evolução é a Engenharia Genética, que permite que seres humanos interfiram no processo natural da evolução e passem a manipular o código genético para promover um “aperfeiçoamento” da espécie humana. Os impactos da Engenharia Genética a longo prazo ainda não são conhecidos.

Uma tecnologia cada vez mais sofisticada afeta e altera o mundo natural, inclusive a capacidade alarmante de alterar elementos fundamentais da vida, como o material genético, que foi resultado de bilhões de anos de evolução. Jonas acredita que as consequências de tais tecnologias terão repercussões cumulativas.

A natureza da Ciência mudou fundamentalmente. A tecnologia se desenvolveu muito e continuará a se desenvolver até chegar a tal ponto que suas consequências excedam o conhecimento que o ser humano possui delas. As repercussões ainda estão por vir. Jonas pede uma reflexão crítica sobre tais tecnologias.

A ética deve impor limites à Ciência, sobretudo se o progresso científico ameaçar a manutenção da vida na terra ou apresentar consequências desconhecidas.

Jonas argumenta que a nova ética da responsabilidade deve incorporar a noção de cautela e a projeção de consequências negativas ao impor limites à atuação da Ciência e da tecnologia.

Jonas afirmou que o ser humano tende a acreditar que a inovação e o progresso são fenômenos indiscutivelmente positivos. Contudo, essa percepção prejudica a capacidade de desenvolver uma crítica contundente e uma ética em relação às novas tecnologias. É necessário considerar o poder de destruição inerente à Ciência. Portanto, a Ética deve se posicionar criticamente contra qualquer avanço científico que ameace a continuidade da vida.